Cadê o meu ócio criativo?

Cadê o meu ócio criativo?

Equilíbrio entre trabalho, estudo e lazer não é colocado em prática

Há dezoito anos o revolucionário livro “O Ócio Criativo”, de Domenico de Masi, era assunto debatido em programas de TV, rodas de amigos, por especialistas em gestão, futurólogos, empregados e empregadores. Como assim, não trabalhar oito horas por dia? Como assim, tirar algumas horas de ócio no meio da tarde de uma quarta feira? Que história é essa de jornadas menores e períodos de “vagabundagem criativa”?

Para o modelo ocidental focado na idolatria do trabalho, do mercado e da competitividade, essas eram ideias loucas. Para muitos, inconcebíveis. O problema era, e é, a confusão comum entre ócio e preguiça. O ócio pode ser motor de produtividade e ter alguma significância, a preguiça é simplesmente insignificante, a qual Domenico chama de “ócio alienante”.

“Existe um ócio alienante, que nos faz sentir vazios e inúteis. Mas existe também um outro ócio, que nos faz sentir livres e que é necessário à produção de ideias, assim como as ideias são necessárias ao desenvolvimento da sociedade”, Domenico de Masi.

A ideia básica por trás do ócio criativo é reestruturar as atividades humanas, buscando equilíbrio entre trabalho, estudo e lazer, além de promover a valorização e o enriquecimento do tempo livre. O trabalho gera a riqueza, o estudo gera o conhecimento, e o lazer gera a alegria. Com isso, produz-se um ciclo virtuoso de produtividade com criatividade, elementos essenciais para os tão badalados processos de inovação.

Infeliz sem trabalho/Infeliz com o trabalho

O mundo feliz e produtivo rascunhado por De Masi não é facilmente convertido em uma bela pintura.

A revolução tecnológica do final dos anos 70 colocou máquinas em funções repetitivas e técnicas, gerando desemprego preocupante. Atualmente, assuntos como inteligência artificial e machine learning trazem nova onda de dúvidas quanto à existência futura de várias profissões.

Um estudo recente feito pelo instituto de pesquisa Observatório Universitário revelou que 53% dos graduados no país trabalham em setores que não têm nada a ver com o seu curso de formação. O desemprego não ronda mais só os pouco letrados, agora ele também tem fome de especialistas com ensino superior completo.

Por outro lado, a felicidade também não acompanha a carteira assinada. No Brasil, 70% da população economicamente ativa sofre de estresse causado por questões relacionadas ao emprego. Dados da Organização Mundial da Saúde apontam que 30% dos trabalhadores do planeta apresentam transtornos de ansiedade, estresse ou depressão.

Falta tempo para o ócio

A tecnologia que viria para facilitar nossa vida e nos dar mais tempo para estudo e lazer, completando a santíssima trindade do ócio de Masi, converte-se em uma preocupação a mais. Como conseguimos isso? Converter uma boa teoria em desgraça iminente? A resposta possivelmente será encontrada junto da “preguiça do aprendizado constante” e do “consumo excessivo de bens desnecessários”.

À medida que há um incremento nos ganhos, a maioria das pessoas também incrementa o consumo. Cria-se, assim, um padrão de vida mais caro. O tempo liberado pela tecnologia é rapidamente ocupado por mais trabalho, mais metas, mais projetos, visando à manutenção sempre crescente desse padrão. Falta tempo para estudos, atualizações e lazer até o dia em que a atividade exercida estará desatualizada ou obsoleta. Os fantasmas do desemprego e do estresse estarão se sentindo em casa.

Para evitar esse quadro temos que estar atentos e usar ferramentas de controle da produtividade. É preciso criar e gerir ambientes equilibrados de trabalho.

O assunto é amplo e o debate necessário. Nesse artigo da Revista Superinteressante há mais insights para contribuir com o tema.

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